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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

A morte da "tecla 3".

O "touch screen" matou a "tecla 3".

 

"Tecla 3" era o insulto perfeito. Só quem era fixe é que o proferia, e só quem era igualmente fixe é que o conseguia compreender. Era um insulto escondido, recatado, parecendo quase uma acusação inofensiva. "Uma coisa da moda", diziam os que se faziam de ofendidos mas que, na realidade, não tinham captado a esperta jogatana feita com números e letras do alfabeto numa única tecla do telemóvel.

 

Aliás, hoje em dia, tendo em conta que a palavra (implícita) já é conotada como imprópria, o insulto ainda se torna mais perigoso, mais "edgy", duplamente nocivo.

 

Contudo, e apesar deste seu grande potencial, era usado em ocasiões relativamente inofensivas: ou porque o Bernardo não tinha feito correctamente os TPC, ou porque a Matilde não tinha lançado bem o volante de badminton, ou até porque o Zé Naifas tinha acendido a ganza ao contrário.

 

Agora, a "tecla 3" só é usada pelos nossos pais ou avós, os utilizadores de telemóveis antigos, que não conhecem o verdadeiro potencial insultuoso desta tecla que pressionam vezes e vezes sem conta quando querem simplesmente carregar no botão vermelho para desligar.

O Nuno ligou-me, mas se calhar não.

– Estou sim?

– Alô?

– Nuno?

– Não, não é o Nuno.

– Não é? Então quem fala?

– O bolso.

– Que bolso?

– O bolso do Nuno.

– O bolso do… Mas como assim? Onde é que está o Nuno?

– Está aqui comigo. Porquê?

– Porquê?! É o número dele que me está a ligar!

– Sim, certo, mas não foi o Nuno que ligou. Fui eu.

– Tu quem? O bolso?

– Sim. Às vezes gosto de ligar para as pessoas, quando o Nuno está distraído. Normalmente ligo para a última pessoa que ele próprio ligou.

– Para quê?

– Sei lá. Para confirmar.

– Mas para confirmar o quê?!

– Pá, por exemplo, se continua tudo bem com a pessoa, ou se chegou a ser tudo dito na chamada anterior.

– Sim, sim, foi tudo dito. Estivemos à conversa durante cerca de meia-hora, mal seria se não estivesse tudo dito.

– Pois, compreendo… Fico contente por saber isso, então.

 

(Silêncio.)

 

– É tudo?

– Sim. Mas agora tem de ser você a desligar, porque eu daqui não consigo. A menos que o Nuno dê um jeito muito específico com a perna, o que não me parece.

– Pois, compreendo. Boa tarde, então.

– Prazer, boa tarde.