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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

O mundo dos ofendidos.

No mundo dos ofendidos ninguém está bem com ninguém.

 

– A Cátia ofende-se com o Miguel porque este foi ao futebol com os amigos.

– E o Miguel ofende-se com a Cátia porque ela, entretanto, viu um episódio da série preferida deles à socapa.

– Já o Carlos está ofendido com o Pedro porque este fez uma piada que envolvia a mãe dele e uns quantos quilos a mais.

– E o mesmo Pedro está ofendido com o Carlos porque este lhe respondeu à provocação com um comentário vagamente homofóbico.

– A Cláudia até gosta da Joana, mas ofende-se muito facilmente com as maneiras dela à mesa.

– E a Matilde, embora odeie a Constança, ainda assim tirou tempo da sua própria vida para se ofender com o comentário que esta fez acerca da sua escolha de indumentária.

– Com o Fernando está toda a gente ofendida, devido às ideias políticas que ele tem defendido ultimamente nas redes sociais.

 

 

Já o tio Baltasar, que vive lá no cimo da serra, não se ofende com ninguém.

E, quem o ofender, leva com a enchada nos cornos.

O representante que Portugal merece.

Estou triste.

Tentei, tentei mesmo, mas não me escolheram.

Comecei a preparar tudo vários meses antes: roupas, dança, instrumental, voz, cenário.

Adoptei dois mochos, colei-os cirurgicamente aos meus cotovelos e substituí as minhas orelhas por dois bonsais.

Cortei uma das pernas e juntei a metade cortada à outra perna, ficando com uma mini e uma mega-perna.

Para completar o look, e até para me conseguir orientar sob as inevitáveis luzes da ribalta, enfiei um astrolábio no rabo, esperando que a noite estivesse estrelada na altura da decisão.

Mas nada.

Apesar de terem elogiado bastante a minha prestação – que se centrou numa música que fala sobre a dor que é para uma pessoa especialmente cabeluda descolar um penso rápido, enquanto um homem com apenas uma bata de médico vestida corre à minha volta com as peles a abanar –, não fui seleccionado para representar o meu país.

Hei-de tentar para o ano.

Não vou desistir do meu sonho.

Afinal, nem todos conseguem ser eurodeputados à primeira tentativa.

Gente parva a fazer compras parvas.

Uma camisa e um pacote de esparguete.

Uns auriculares e bolas de Natal.

Areia para gato e um colete reflector.

 

Todos nós já fizemos compras parvas. São pequenas aquisições que, juntando os produtos lado a lado, fazem pouco sentido.

 

Uma vez por mês, cada família costuma fazer compras gerais para o lar que até fazem algum sentido: água, cenouras, manteiga, coentros, atum (óbvio), etc. Há até aqueles que se aventuram a passar uma tarde inteira em lojas da especialidade para comprar cortinas, tapetes, candeeiros, um sofá, um piaçaba e uma torneira para o bidé. Ainda assim, tudo certo.

 

Só que, ao longo do resto do mês, o nosso calendário capitalista vai sendo populado por parelhas absurdas; produtos que não casam bem uns com os outros, que foram comprados em várias lojas diferentes. Ou porque nos esquecemos de algo terrivelmente específico da última vez que fomos ao supermercado, ou porque entretanto acabou ou avariou alguma coisa lá em casa, todos nós acabamos por ter vergonha de ser vistos em público com compras parvas na mão.

 

No outro dia vi um senhor comprar um frango inteiro congelado e um daqueles pinheiros ambientadores para o carro. Ora, a menos que ele tenha uma receita muito específica de frango assado, temo bem que também esse cavalheiro tenha sido vítima de compras parvas.

 

Abraço, senhor do frango!

Não se preocupe, toca a todos.