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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Se andar de avião fosse uma boa experiência.

Entrei no avião e sentei-me. Os assistentes de bordo deram-me os bons dias, e eu, como sempre fui bem educado desde criança, respondi-lhes na mesma moeda. Depois, deram-me um beijinho em cada bochecha. Achei estranho, mas segui em frente.

 

O avião tinha uma disposição diferente de todos aqueles nos quais já tinha andado. Só tinha lugares de janela e de corredor. O espaço que devia ser para o banco do meio, onde ninguém quer estar, tinha sido substituído por uma pequena fonte com dois canários cada uma. Os canários eram falsos, claro, mas os sons eram reais. Vinham de um livestream, num jardim algures em terra.

 

Sentando-me, à janela, reparei que tinha tanto espaço para as pernas que, esticando-as, nem chegava com os pés ao banco da frente. Até tive de me levantar para ir buscar a revista de bordo lá à frente. Pela primeira vez na vida vi uma revista de bordo com coisas realmente interessantes, e produtos até bastante úteis.

 

Surgiu a voz do piloto. Falou-nos primeiro em português e depois num inglês perfeito, em que se percebia tudo o que estava a dizer. Não nos obrigaram sequer a ouvir a cantilena das medidas de segurança, e os assistentes de bordo até se ofereceram para nos colocarem as máscaras e encherem os coletes em caso de qualquer acidente.

 

O entretenimento de bordo era fantástico. Saíram de uma das casas de banho três palhaços – que se apressaram a espetar tartes na cara uns dos outros e a fazer animais de balões para as crianças que estavam a bordo –, duas prostitutas (para os que estivessem interessados) e um contabilista, para quem precisasse de tratar das suas finanças, agora que é altura de entregar os IRS.

 

A comida… Ah, a comida! Sopa, prato de peixe, prato de carne e sobremesa, e com bebida à descrição. Tudo bem temperado. Entre os pratos, um tira-gostos que sabia a polpa de tomate, vá-se lá saber porquê.

 

Terminada a refeição, servida em pratos e talheres do tempo da China imperial, alguns assistentes de bordo foram lavar a loiça, enquanto outros ficaram a tentar impingir-nos rifas. Só que as rifas eram todas vencedoras, ganhava-se sempre alguma coisa, nem que fosse um par de meias.

 

Turbulência nem vê-la… Nem quando as prostitutas estavam lá nas filas de trás a fazer o seu serviço a uns cavalheiros mais atrevidos se o avião mexeu!

 

Cereja no topo do bolo: o vôo aterrou mais cedo do que o previsto. Ao que parece, o piloto estava com a fezada e deu uma corridinha até ao destino.

 

À medida que me ia aproximando da porta de saída (que abriu de imediato, escusado será dizer), e que já me preparava para corresponder aos sorrisos em jeito de despedida dos assistentes de bordo, comecei a acordar.

 

Ainda estava na cama.

Por estar a sonhar com coisas parvas, perdi o meu vôo.