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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

O homem que só amava Matildes.

Afonso é uma pessoa relativamente normal em todos os aspectos da vida, excepto no amoroso. Isto porque, desde que se lembra de existir, só foi capaz de amar raparigas chamadas Matilde.

Sim, é verdade: todos temos os nossos gostos. Há quem goste de pessoas morenas ou loiras, altas ou baixas, com óculos, sardas, inteligentes ou rebeldes. Mas, a Afonso, calhou a especificidade de apenas conseguir gostar de Matildes.

Tudo começou com Matilde Sequeira, na escola secundária. Afonso até já tinha tido alguns namoricos em anos anteriores, como todas as crianças, mas nenhum tinha durado particularmente muito tempo – até porque nenhuma das suas efémeras parceiras se chamava Matilde. Esta primeira, então, era jogadora de basquetebol; e nos tempos livres batia em Afonso. Só que este, sempre que via aquele nome tão belo nas costas da camisola da equipa, esquecia o sofrimento por que passava.

A segunda chamava-se Matilde Correia. Era do mesmo curso universitário que Afonso, e aproveitava-se desse facto para lhe pedir que assinasse as aulas da manhã por ela enquanto esta se ia divertir na noite. Afonso não achava aquilo correcto, mas ver o nome dela ali na folha, ainda por cima escrito por si próprio, era para ele uma fonte de atracção inesgotável. Infelizmente, a relação terminou quando esta segunda Matilde desistiu do curso para aprender bartending, já não havendo necessidade de Afonso assinar quaisquer folhas por ela.

A terceira Matilde chamava-se, na verdade, Ana Matilde, mas como era daquelas pessoas que prefere ocultar o primeiro nome, ainda conseguiu enganar Afonso durante algum tempo. Escusado será dizer que essa relação não durou muito tempo.

A quarta foi a relação de maior duração que Afonso alguma vez teve. Ela chamava-se Matilde Pinheiro, o que acrescentava ainda mais à cumplicidade, porque Afonso tinha tirado licenciatura justamente em Dendrologia. Tinha sido a mãe dos dois filhos dele, chamados Matilde e Matildo. Era a esposa ideal, até ao dia em que o deixou porque descobriu que o Instagram do marido estava inundado de outras Matildes, e que a tendência era para a lista aumentar, tal era o vício. Havia a @matilde_couraça69, a @matildinha1987, a própria @serqueiramatilde e até a @matfat.pt.com, que afirmava que só trabalhava no Verão e era para o bronze, embora todos soubessem que vendia droga lá nos subúrbios durante todo o ano.

Mas a verdade é que, apesar desta lista infindável de nomes começados pela letra “M” e acabados em "atilde", ultimamente Afonso não tem tido sorte com mais nenhuma. Na sua idade actual já é difícil partir para grandes conquistas, além de que, depois de tudo o que sofreu, acaba por preferir a quietude de um mar manso em termos de amores.

Só que, no outro dia, enquanto estava a passear, Afonso deu de caras com outra candidata que lhe prendeu imediatamente a atenção. E teria sido talvez a parceira perfeita, não fosse pelo facto de já estar bastante morta e enterrada. Enfim... Pelo menos pela fotografia da lápide – que estava ao lado do nome “Matilde” escrito a letras douradas – parecia-lhe bastante bem.