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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

A mulher que está sempre no cu das listas.

O maior problema da Dona Zulmira é justamente esse: chamar-se Zulmira. Não é o fanho com que sempre falou, não é a perna coxa sobre a qual sempre andou e nem são sequer os bicos de papagaio que acumulou ao longo dos últimos anos de velhice. O seu verdadeiro drama é, e sempre será, o seu nome.

Porque, durante toda a sua vida, a Dona Zulmira foi sempre a última. Em tudo. Nas listas todas em que estava incluída.

Tudo começou na escola. A Dona Zulmira – que então era só Zulmira, porque ainda não tinha atingido o estatuto de Dona que vem com a idade – odiava a Ana, o Alberto e o Ananias. Também não ia lá muito à bola com a Beatriz e o Bernardo. Quanto muito, tolerava a Carlota e o Carlinhos (que, em adulto, tornou-se só Carlos). Todos esses miúdos com nome dianteiro no alfabeto eram uns privilegiados, achava ela, e haviam de o ser toda a vida.

Já a (Dona) Zulmira, no fundo da sala e do alfabeto, era sempre das últimas para tudo. O que no ensino até não era mau de todo, porque lhe dava tempo para acabar os TPC’s que não tinha feito no dia anterior enquanto a professora verificava os cadernos dos A’s, B’s e C’s. Mas, em contrapartida, era sempre a última a fazer apresentações de trabalhos e recensões, e quando chegava a vez dela, já os colegas estavam demasiado agitados e a mirar o relógio, a contar os minutos que faltavam para saírem da aula.

E foi assim o resto da sua vida. A (Dona) Zulmira nunca era apreciada, porque quando chegava a vez da sua apreciação, já ninguém tinha pachorra para apreciar mais nada.

Chegou até a tentar uma carreira na representação, e escolheu o ridículo nome de artista Ana Abacate, só para garantir que seria sempre das primeiras escolhas quer as listas fossem feitas por ordem de nomes ou de apelidos. Mas, tão pérfida é a sua sorte, que no único casting para o qual foi chamada, a lista tinha sido organizada por idades. E ela, como era das poucas trintonas no conjunto (já tinha principiado tarde a vida de artista), foi de novo colocada no fim, sendo que, quando chegou a sua altura, o papel – de jovem suburbana rebelde, que herda uma fortuna de um tio-avô chamado Carlinhos, curiosamente – já tinha dona.

Hoje em dia, a situação complicou-se mais um pouco. Foi diagnosticado à Dona Zulmira um cancro de mama especialmente pestilento, após o rastreio que é feito anualmente às mulheres da aldeia. Só que esses rastreios são feitos por ordem alfabética, em dias diferentes, e logo aí podem deduzir a mágoa da Dona Zulmira: é que ainda hoje ninguém lhe tira da cabeça que, se tivesse sido chamada mais cedo, como a Almerinda da padaria, o caso seria de mais fácil resolução.

Enfim. Só nos resta desejar muita força à Dona Zulmira, e esperar que até na lista da Morte seja das últimas a ser chamada.