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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

13º dia de quarentena.

Os electrodomésticos começam a ficar hostis.

A torradeira queima imediatamente qualquer fatia de pão que eu lá ponha. Já o microondas parece ter optado pela estratégia oposta, de não aquecer aquilo que lhe peço. Estou há duas horas a aguardar que amorneça uma sopa.

A máquina de lavar a roupa descolorou-me as cuecas, que agora parecem lindos chapéus da moda contemporânea. Talvez ainda lhes dê uso quando isto acabar.

O congelador do frigorífico está a criar quantidades enormes de gelo, de tal forma que já é pouco o espaço que lá tenho para colocar alimentos. Penso que seja uma estratégia para me ir matando à fome aos poucos.

O fogão está só armado em parvo, a mandar bocas foleiras. E, sendo que tem quatro bocas, até irrita bastante.

Mas o mais grave é que aconteceu hoje a primeira declaração aberta de guerra. O forno queimou-me o dedo grande da mão esquerda.

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Não sei quanto mais tempo consigo aguentar a paz podre que se vive neste lar.

Até tirava a t-shirt para andar à bulha, mas não consigo. A máquina encolheu-a.

Primeira semana de quarentena.

Fui esperto, comprei o stock todo. Depois cheguei a casa e foi um tal tapar tudo com papel higiénico.

Tapei as portas, tapei as janelas, tapei as paredes e o tecto. Tapei os tapetes, tapei o lustre, tapei a areia do gato e tapei até a chaminé, não fosse aparecer-me lá de surpresa um Pai Natal com uma saca cheia de COVID-19.

Tapei também a secretária, os sofás, as camas e as mesinhas-de-cabeceira. Tapei a televisão, mas com papel de uma só folha, para conseguir ver mais ou menos as notícias. O Rodrigo Guedes de Carvalho aparece-me agora no ecrã meio enevoado, parecendo o D. Sebastião. É um efeito muito giro.

Fui à casa-de-banho e fiz questão de tapar tudo, também. Tapei a sanita, tapei o duche, tapei o lavatório e tapei o bidé. Tapei até o papel higiénico com outro papel higiénico, só para garantir que o de dentro não perecia.

Na cozinha, a mesma coisa. Panelas, talheres, pratos, copos e géneros alimentícios, tudo tapado individualmente. Fogão, torradeira e microondas também, e a máquina do café só destapo de manhã porque eu cá sem cafeína não me governo.

Tenho tudo pronto, tudo tapado. Não há vírus que me apanhe.

Agora só me falta arranjar uma maneira de limpar o cu.

2002 é 2020.

O ano era 2002:
O debate sobre a eutanásia em Portugal estava ao rubro (devido à recente despenalização holandesa), Fabio Liverani era criticado no seu país por ser o primeiro jogador negro da selecção italiana de futebol, os EUA estavam em guerra com metade do Médio Oriente e Cláudio Ramos fazia parte do Big Brother, na TVI.

 

Agora, o ano é 2020:
O debate sobre a eutanásia em Portugal está ao rubro, Moussa Marega é alvo de insultos racistas, os EUA ameaçam guerra com metade do Médio Oriente e Cláudio Ramos faz parte do Big Brother, na TVI.

 

18 anos depois, o Mundo ainda não atingiu a maioridade.