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Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

Não Há Gente Como a Gente

Um blogue. Um podcast. Um par de palermas.

35º dia de quarentena.

Por falta de meios – e, sinceramente, paciência –, tenho andado a descurar a minha higiene pessoal.

Deixei de tomar duche. O cheiro é intenso, mas uma pessoa depois habitua-se. A pior parte é que as moscas ficam aqui a rondar. Nunca desejei tanto ter uma cauda.

Não corto as unhas desde o início da quarentena. O que é bom para apanhar teias de aranha nos cantos mais difíceis da casa, e até para coçar alguns orifícios pessoais. Sou uma espécie de Eduardo Mãos de Tesoura, mas um bocadinho mais pálido.

Da barba e do cabelo já perdi completamente o controlo. Estão-me ambos pelos joelhos, o que até dá jeito nas refeições porque já não preciso de um guardanapo de colo quando estou sentado. Fica tudo na barba, e assim até se armazena comida para mais tarde.

O cotão do meu umbigo já dava para tricotar uma bela "suéra" para o Tiaguim. Pena que eu não sei fazer tricô, e por isso tenho-o usado só como almofada.

Os dentes também precisavam de um bom esfreganço, e só reparei nisso quando as plantas começaram todas a desfalecer assim que eu lhes dirigia a palavra. Agora não tenho com quem falar.

Enfim, mas mantenho-me optimista, porque todos dizem que vamos sair disto pessoas mudadas.

E eu confirmo, porque já vejo esse efeito. Estou, aos poucos, a regressar aos tempos das cavernas.

28º dia de quarentena.

Não sei que dia é, e já só tenho uma vaga ideia de que horas são.

Por falta de outros meios de diversão aproveitei os calendários para jogar ao bingo, e já nenhum relógio da casa tem pilhas porque usei os electrólitos que tinham dentro para desinfectar as bolas à medida que iam saindo da tômbola.

Também para ajudar ao desnorte, chegou há uns dias (não sei bem quantos) a mudança para a hora de Verão. Uma pessoa já estava habituada ao ritmo de Inverno e agora tem de adormecer mais cedo para ver se não apanha um escaldão na cama logo pela manhã.

Aliás, não me posso sequer aproximar das janelas para ver em que posição está o Sol, porque a deficiência de vitamina D já é tanta que me tornei uma espécie de vampiro hipocondríaco.

Nem os aparelhos electrónicos me podem dar alguma dica. Deliguei-os todos, porque já não aguentava tantas notícias. Antes era a voz do Rodrigo Guedes de Carvalho a explicar coisas na televisão que me indicava que já eram horas de jantar. Hoje, quiçá, vou jantar às cinco da manhã, porque já ninguém me explica nada.

Por favor, confirmem-me só se já chegámos a Julho de 2023.

É porque combinei um casamento com uma pessoa para essa altura, e se eu não aparecer no altar ela vai ficar bastante chateada.

21º dia de quarentena.

Alguns produtos começam a escassear, e vejo-me obrigado a recorrer ao improviso.

A comida está a dar as últimas, mas hoje ainda consegui comer uma fatia de queijo flamengo e duas metades de duas azeitonas, que quando juntas fizeram uma azeitona completa. E até aproveitei o caroço para servir de tempero a futuras refeições. Por enquanto não me posso queixar.

O sabão da loiça acabou. De momento estou a lavar os pratos e talheres com gel de banho, que isso comprei em doses industriais. Espero que não seja muito estranho comer em loiça a cheirar a duche.

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O papel higiénico também já era – talvez por eu ter estado a forrar a casa toda com ele. Vale-me o facto de ter guardado todas as cascas das bananas que tenho comido, por o primo de um tio da namorada de um médico do Hospital Santa Maria me ter dito no WhatsApp que o potássio era muito bom contra o vírus. Homem prevenido, cu lambido, já dizia a minha avó (e já na altura eu achava um ditado estranho).

Finalmente, em termos de vinho, a situação também não está famosa. Tenho bebido os frascos de perfume que tenho em casa, já que tão cedo não me vou perfumar para sair à rua. Ainda ontem, ao jantar, abri um belo Paco Rabanne, e estou a guardar um Dior Reserva para uma ocasião especial.

Apesar de tudo, estou bem, não se preocupem.

Podem é trazer-me mais bananas, que dão jeito quer para a alimentação, quer para a higiene.

13º dia de quarentena.

Os electrodomésticos começam a ficar hostis.

A torradeira queima imediatamente qualquer fatia de pão que eu lá ponha. Já o microondas parece ter optado pela estratégia oposta, de não aquecer aquilo que lhe peço. Estou há duas horas a aguardar que amorneça uma sopa.

A máquina de lavar a roupa descolorou-me as cuecas, que agora parecem lindos chapéus da moda contemporânea. Talvez ainda lhes dê uso quando isto acabar.

O congelador do frigorífico está a criar quantidades enormes de gelo, de tal forma que já é pouco o espaço que lá tenho para colocar alimentos. Penso que seja uma estratégia para me ir matando à fome aos poucos.

O fogão está só armado em parvo, a mandar bocas foleiras. E, sendo que tem quatro bocas, até irrita bastante.

Mas o mais grave é que aconteceu hoje a primeira declaração aberta de guerra. O forno queimou-me o dedo grande da mão esquerda.

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Não sei quanto mais tempo consigo aguentar a paz podre que se vive neste lar.

Até tirava a t-shirt para andar à bulha, mas não consigo. A máquina encolheu-a.

Primeira semana de quarentena.

Fui esperto, comprei o stock todo. Depois cheguei a casa e foi um tal tapar tudo com papel higiénico.

Tapei as portas, tapei as janelas, tapei as paredes e o tecto. Tapei os tapetes, tapei o lustre, tapei a areia do gato e tapei até a chaminé, não fosse aparecer-me lá de surpresa um Pai Natal com uma saca cheia de COVID-19.

Tapei também a secretária, os sofás, as camas e as mesinhas-de-cabeceira. Tapei a televisão, mas com papel de uma só folha, para conseguir ver mais ou menos as notícias. O Rodrigo Guedes de Carvalho aparece-me agora no ecrã meio enevoado, parecendo o D. Sebastião. É um efeito muito giro.

Fui à casa-de-banho e fiz questão de tapar tudo, também. Tapei a sanita, tapei o duche, tapei o lavatório e tapei o bidé. Tapei até o papel higiénico com outro papel higiénico, só para garantir que o de dentro não perecia.

Na cozinha, a mesma coisa. Panelas, talheres, pratos, copos e géneros alimentícios, tudo tapado individualmente. Fogão, torradeira e microondas também, e a máquina do café só destapo de manhã porque eu cá sem cafeína não me governo.

Tenho tudo pronto, tudo tapado. Não há vírus que me apanhe.

Agora só me falta arranjar uma maneira de limpar o cu.